As cicatrizes das enchentes de 2023

O local:

Após a enchente de setembro de 2023 no Rio Grande do Sul, muita coisa não é mais como antes. Um desastre com ares cataclísmicos, que afetou todo o eixo dos Rios das Antas e Taquari. Um dos locais que estava no caminho da enxurrada era a região compreendida entre a Linha Alcântara, Distrito de Faria Lemos, no interior de Bento Gonçalves e comunidade de Santa Bárbara, no município de São Valentim do Sul, um trecho de pouco mais de 11 quilômetros onde a ERS-431 margeia o Rio das Antas. No final do trecho, o encontro dos Rios das Antas e Carreiro originam o grandioso Rio Taquari. Ali havia uma ponte, na divisa dos municípios de Santa Tereza e São Valentim do Sul.

Sabe-se que a BR-470 é uma das principais rodovias utilizada para quem segue da Serra Gaúcha ao norte do estado. Entretanto, muitos motoristas a evitam em virtude do grande volume de veículos pesados e do longo trecho sinuoso e de pista simples, que contorna o vale do Rio das Antas. Até pouco tempo atrás, a principal alternativa era a ERS-431, entre os municípios de Bento Gonçalves e Dois Lajeados. Este caminho praticamente deixou de existir depois da enchente de setembro de 2023, a pior já registrada no estado do Rio Grande do Sul.

A ponte de Santa Bárbara, como era chamada por se situar na localidade de Santa Bárbara, em São Valentim do Sul, foi inaugurada na década de 60 e tinha cerca de 27 metros de altura em relação ao nível normal do Rio Taquari e 280 metros de comprimento.  No dia 04 de setembro de 2023, a água acumulada cobriu vários quilômetros da rodovia e também a ponte, derrubando-a completamente no início da noite. O colapso iniciou pelo pilar central, que não suportou a pressão da enxurrada. Na sequência, as cabeceiras foram praticamente dissolvidas pela água turbulenta do rio.   

enchentes de 2023 no RS
Fonte: Reprodução das redes sociais.

Antes das enchentes, essa região era dotada de beleza ímpar, repleta de propriedades rurais e algumas vendas de produtos coloniais às margens da rodovia. Era comum passarmos por ali devagar, admirando a natureza e até parando para comprar algumas frutas de época para a viagem.

 

Na enchente de setembro, alguns trechos da ERS-431 também foram levados pelo rio, deixando a região praticamente isolada. Enquanto alguns moradores tentam reconstruir suas casas, levadas pelo rio, outros deixaram os escombros para trás e alguns simplesmente afixaram placas de vende-se. Um ambiente impactante, parecido com algo pós-apocalíptico. Sequer haviam superado o trauma de setembro, quando outra enchente ocorreu, pouco mais de dois meses depois, com quase a mesma magnitude da primeira.

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É impressionante trafegar por ali e ver o lixo enroscado nos galhos das árvores que resistiram à enxurrada, 4 ou talvez até 5 metros acima do nível da rodovia e das fundações das casas que existiam antes. Uma amostra do quanto o rio subiu e o que a correnteza carregou. Em uma ocasião, na manhã do dia 10 de janeiro de 2024, um motorista de caminhão desavisado, transitando pelo lado de São Valentim do Sul, ignorou as placas de interrupção e quase caiu no rio.

enchentes de 2023 no RS
Fonte: Reprodução das reses sociais.

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Nenhuma foto de escombros das casas foi tirada, afinal, não fomos lá para explorar a desgraça alheia, mas sim para  mostrar como a rodovia se encontra. Hoje, ao transitar pela região, você irá se deparar não só com as cicatrizes das enchentes de 2023, mas também com algumas chagas ainda abertas e difíceis de cicatrizar. Estabelecimentos comerciais praticamente fecharam as portas, pois não havia mais fluxo de veículos. A região que esbanjava beleza e vida está desfigurada.

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Pouco mais de 3 meses após o evento, foi anunciada a solução paleativa para ERS-431: uma balsa, que teria que subir o Rio Taquari para ser posicionada ao lado da antiga ponte. Um alento, apenas. No entanto, a principal reclamação dos moradores da região é o fato de que a rodovia só começou a receber reparos poucos dias antes do início da operação da balsa. Antes disso, houve apenas a limpeza dos escombros.

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Ao lado do que um dia foi a ponte de Santa Bárbara, repousam suas lajes, junto ao enorme pilar de quase 30 metros, debruçado no leito. Um fim melancólico para uma estrutura tão importante.

enchentes de 2023 no RS
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A balsa começou a operar no início de fevereiro de 2024 e provavelmente irá permanecer atuando até a construção da nova ponte. Nesse meio tempo, já passou por diversas interrupções por falha ou manutenção.

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Relatos de usuários apontam que em determinados momentos, a fila de espera para a travessia chega a 5 horas. Além disso, os trechos da rodovia que cederam e tiveram que ser reconstruídos ainda estão em situação precária. Nada será como antes, ao menos, a vida está voltando ao mais próximo possível de sua normalidade.

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Ao lado da rodovia, haviam bolsões de vegetação que impediam a vista do outro lado do rio. A própria Hidrelétrica 14 de Julho não era visível para quem transitava pela ERS-431. A enxurrada abriu uma clareira enorme e agora a paisagem ficou bem diferente.

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Nas proximidades da Capela Santo Antônio, paramos para conversar com um morador da região, que possui uma pequena banca de produtos coloniais, às margens da rodovia. Ele relatou que na tarde do dia 04/09/2023, pouco antes do auge da enchente, conseguiu resgatar alguns animais de sua propriedade, galinhas, coelhos e patos, colocando-os pouco acima do nível da ferrovia, dentro de sua propriedade, antes de sair. "Eles não foram levados pela enxurrada, mas por saqueadores", lamenta. Ele nem imaginava que naquela noite, sua banca seria coberta por 4 metros de água, algo inimaginável.

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Já de acordo com relatos de moradores locais, a enchente ocorreu de forma tão repentina que pela manhã, o rio estava próximo de seu nível normal. Durante a tarde, subiu rapidamente, tanto que algumas pessoas não conseguiram sair após a água cobrir pontos mais baixos da rodovia nos dois sentidos. Restou a eles fugir para cima da ferrovia praticamente só com as roupas que vestiam e aguardar o nível do rio baixar, algo que só ocorreria no dia seguinte. Quando o rio baixou, os pedaços das casas que sobraram estavam espalhados sobre a pista ou enroscados em árvores. 

Houve afundamento de pista em diversos pontos, mas o trecho mais prejudicado da rodovia e que teve que ser praticamente reconstruído desde seu subleito fica nas imediações da Linha Colussi, interior de Monte Belo do Sul, a cerca de um quilômetro da balsa. O trecho segue em obras.





 

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